sexta-feira, 17 de outubro de 2008


Se em mim insiste "um ser",
não estou só então?

Nada não.
Apenas me sentindo "meio de canto"
(...)

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Pérolas da sala de aula

Ontem preenchia o diário de classe quando fui interrompida pelo Luíz:
" Professora você acredita em Deus?"
" Acredito sim Luíz..."
"Eu também professora..."
(Luíz deu uma volta no mesmo lugar e prosseguiu)
"Sabe professora, eu acredito em Deus, mas eu nunca vi Ele."
"Ah, Ele fica dentro do seu coração."
(Luíz deu mais uma volta no mesmo lugar e continuou)
"Acho que vou cortar o peito e tirar o meu coração fora. Quero tanto ver Deus!"
E nesse exato momento somos interrompidos por uma funcionária da escola que a tudo escutou e deu seu pitaco:
"Deus está nas coisas bonitas que você vê. Está nas atitudes boas, no abraço do amigo. Nos sentimentos bons, entende?"
Luíz olha para todos os lados e dá como resposta apenas uma "erguidinha" de sombrancelhas.
Então seu melhor amigo, Miguel, compreendendo que Luíz não ficara satisfeito com a resposta, lhe diz com toda alegria (ignorando totalmente o que disse a funcionária):
"Amigo você quer mesmo ver Deus?"
Luíz, (como quem tem sede de resposta), "Quero!"
"Ah, então é só você ir na minha igreja que tem uma fotografia dele lá, você precisa ver!"
(...)


Miguel e Luíz


(Mal sabe o querido Luíz que as perguntas apenas começaram.
E que a resposta que ele procura é bastante relativa.)

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

"Só o que está morto não muda"


A rotina vem aborrecendo-me demais. Sabe quando você fica com a sensação de que tudo está ligado no maldito automático? Pois é! Decidi então, desde segunda-feira, que vou começar a mudar o que posso. Algumas atitudes simples, que farão alguma diferença em meu cotidiano.
Comecei então pela sala de aula. Os alunos sempre sentam da mesma maneira, sozinhos e de frente para mim. Pôxa, eles têm apenas 7 anos de idade, me angustia vê-los dispostos dessa forma, sabendo que assim será até a faculdade. Somente agora pode ser de outro jeito, então coloquei-os em grupos espalhados pela sala de aula. Rendeu mais sorrisos, união, e um outro jeito meu, de ser e estar na sala de aula para ensinar alguma coisa.
Fui caminhando à escola. Voltei também caminhando, porém por ruas diferentes da ida. Não imaginava que essa atitude me faria tão bem!
Como é bom ter pernas e pés sentindo-se capaz de ir e vir. Ter o prazer de andar a cada instante, por um pedaço de chão diferente.
Como é espetacular ter olhos e poder enxergar tudo ao meu redor. Observar pessoas, reparar suas fisionomias, o jeito como caminham. A beleza individual. A graça por sermos únicos, mesmo sendo vários da espécie.
Ver a arquitetura das casinhas antigas do centro da cidade. Olhar pra o chão e ver os desenhos que vão se formando, pelo simples fato de que pessoas e mais pessoas passaram e passam por alí todos os dias. Ver as plantas e os animais. Sentir os diferentes cheiros dos lugares. Recordar momentos já passados por essas ruas. Pensar que de todos os lugares do mundo, eu, por algum motivo, pude estar alí naquele determinado momento, recebendo tudo isso como uma dádiva de Deus.
Parece pouco?
A vida só é pouca para aqueles que passam por ela sem ter nunca se dado conta de todos esses sintomas de vida. É claro, não serei hipócrita dizendo que serei assim todos os dias, mas é bom às vezes se dar conta de que a vida é rara.
Cheguei em casa maravilhada. O copo de água foi muito bem recebido por todo o corpo, mas não foi o mesmo de todos os dias. Esse líquido tão poderoso que é a água, nesse momento teve realmente o sabor de uma fonte, a fonte VIDA!
Também consegui dormir cedo e leve, o que a bastante tempo não conseguia, permitindo sempre que problemas atrapalhassem a hora sagrada do sono.
E para finalizar esse relato das mudanças que apenas comecei, nada melhor para traduzir-me que a poesia de Alberto Caeiro:

“O meu olhar é nítido como um girassol/Tenho o costume de andar pelas estradas/Olhando para a direita e para a esquerda/E de vez em quando olhando para trás/E o que vejo a cada momento/ É aquilo que antes eu nunca tinha visto/E eu sei dar por isto muito bem...Sei ter o pasmo essencial/Que tem uma criança/Se, ao nascer/Reparasse que nascera deveras...Sinto-me nascido a cada momento/ Para a eterna novidade do mundo/Creio no mundo como num malmequer/Porque o vejo. Mas não penso nele/Porque pensar é não compreender.../ O mundo não se fez para pensarmos nele/(Pensar é estar doente dos olhos) Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo.../Eu não tenho filosofia: tenho sentidos.../Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,/Mas porque a amo e amo-a por isso/ Porque quem ama nunca sabe o que ama/ Nem sabe por que ama nemo que é amar.../Amar é a eterna inocência/E a única inocência não pensar” (O Guardador de Rebanhos, II).

A vida é boa!

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

"Me and You and Everyone We Know"

Já fazia algumas semanas que o Marcos, meu amor, vinha me falando "Amor, você tem que assistir esse filme (...)". Minha memória é totalmente precária quando o assunto é guardar nomes de qualquer coisa que seja. Mas me recordo que essa frase vinha junto com o nome do tal filme em inglês. Confesso que ando bastante preguiçosa para assistir filmes "cults", estou mais para "rever" filmes que gosto (independente da categoria), do que propriamente para "ver" filmes novos. Talvez, em decorrência disso, ainda não havia dado crédito ao meu amor, e até então, andava em falta com ele por simplesmente dormir em todos os últimos filmes.
Mas felizmente ontem, numa noite inusitada (obrigada amor!), assistimos "Me and You and Everyone we Know", um filme de Miranda July, que encanta por ser escritora, diretora e que interpreta Christine, uma artista iniciante tentando um lugar ao sol, nesse vasto e complicado caminho do reconhecimento.
O filme demonstra as inter-relações existentes na vida de Christine, Richard (John Hawkes) e outros personagens que circundam pelo filme de modo que, cada um tem um jeito próprio e pessoal de lidar com a solidão. Sem com que isso aparente tristeza, e sim um jeito honesto de encarar e viver os tropeços da vida.
É um filme que REcria a arte de um modo realmente criativo, descartando efeitos especiais em troca apenas de um refinado olhar, som, fotografia e lugar.
Um filme que podemos nos ver imersos de particularidades que são ao mesmo tempo nossas e universais.
Vale a pena conferir!

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

"Formigas que trafegam sem porquê"


De uns tempos pra cá, quase todos os dias sou abordada dentro do ônibus, ainda parado no Terminal Central de Piracicaba. E sempre, (sem brincadeira), é a mesma pergunta que me fazem:
"__Moça, esse ônibus sobe a XV?"
Eu realmente não sei o que acontece, e por que isso vem me incomodando tanto.
Mas ontem fiquei pensando "Por que sempre eu?". Tem o motorista, tem diversas senhoras e senhores, estudantes, todo tipo de morador dessa cidade muito antes de mim, e por que justamente eu?
Será que pareço simpática? Bem instruída? Professora?
Será que pareço boa? Inspiro confiança nas pessoas? Por que será, hein?!
Fico com vontade de perguntar depois "Viu, só uma perguntinha, por que você me escolheu pra tirar a sua dúvida sobre a subida do ônibus pela famosa XV de Novembro?".
E se fizesse a pergunta, a pessoa teria uma resposta? Creio que certamente ela responderia: "Não sei!", ou então "Sei lá!".
As pessoas são condicionadas o tempo todo a se olharem e agirem como máquinas ambulantes.
Levam o famoso dito popular "Quem tem boca vai a Roma", ao pé da letra. Ninguém leva em si, enquanto caminha pelas ruas de qualquer lugar, alguma coisa do tipo "Quem vem do lado oposto?".
Enfim, ficaria decepcionada com a resposta, por isso jamais faria a pergunta. Prefiro ficar apenas com uma boa impressão de mim mesma.


(O mais irônico desse fragmento é que cada dia pego um ônibus diferente para ir ao trabalho, o que faz com que eu nunca guarde qual deles sobe ou não a XV de Novembro. Conclusão, vivo dando sempre a mesma resposta, "não sei". Logo, vivo decepcionando as pessoas).

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Telegrama que trouxe milágrimas

Uma semana atrás chegou meu "telegrama", como sugere a música de Zeca Baleiro. Estava solitária e de repente a campainha tocou. Era ele. Desci correndo pelas escadas desse velho prédio onde moro. Abri as portas e lá estava ele! De mochila nas costas e de braços para o meu abraço.
Foi assim que começou toda mudança no meu complicado universo.
Primeiro ele deitou-me em seu colo e disse baixinho "Pode chorar amor". E nesse momento, confesso, era realmente o que eu mais precisava. Colocar pra fora, chorar, "milagrimar", (se é que Itamar Assumpção me permite transformar em verbo seu substantivo "milágrimas"). Depois, ele me ouviu calado. Desabafei. Culpei. Falei demais. E ele, no momento exato, me fez ver que não há motivos para achar um culpado, mas sim há motivos para aceitar os erros, perdoar...
A semana acabou, e o sábado que era pra ser de sol, Deus quisera que fosse de muita chuva. Com isso, a "Festa da Primavera" da escola parecia perdida. Mas não foi. Ele estava do meu lado. Trabalhou, riu, conheceu meus alunos, se deslumbrou, e sem que eu pedisse, pegou a fila e trouxe-me o tão desejado algodão doce.
Sabe, apesar desse amontuado de pensamentos confusos sobre amor, relacionamento, fidelidade, lealdade e confiança, envolvendo minha família deixar-me tão fragilizada, pequena e até desacreditada, senti que algo além desse mundo queria acontecer dentro de mim. E aconteceu mesmo. É incrível como Deus cria meios para acreditarmos de novo, para renovarmos a fé.
O fato é que, durante a festa diversas pessoas, em momentos diferentes, referiam-se a mim e a ele da seguinte maneira: "Nossa, como vocês combinam!", "Tem traços em comum". Uma amiga mais próxima, "Olha o modo como ele faz, é igualzinho a você amiga!". E me convenci ainda mais quando uma criança nos olhou e disse, "Professora, sabia que vocês se parecem?"
Pode não fazer sentido, mas era uma conspiração afirmando a mim, o tempo todo,
"Acredite no amor!"
Isso tudo me fez refletir que entre ele e eu há um espaço no meio que nos liga, que nos movimenta em liberdade de estarmos juntos, que é sentimento recíproco de amor, de amar.
Se o mundo tenta mostrar a todo momento que as pessoas constroem relacionamentos como castelos de areia na beira da praia, tenho fé suficiente para crer que ondas não desfazem uma casa sólida.
Enfim, depois da "Festa da Primavera" sementes germinam dentro de mim. A semana passou voando. Os dias ficaram mais leves.
Não. Os problemas não foram resolvidos. Tão pouco a dor que sinto recebeu uma sentença. Ela ainda é incalculável. Mas, tenho agora a dádiva de sentir que "a cada milágrimas sai um milagre", e em forma de verbo, ou como bem quis Itamar Assumpção um substantivo, agora isso já não é mais um ato, e sim um fato.


Boa noite,
D.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Silêncio e Grito



Rabiscos a gente sempre inventa. Desde de criança.
Eles ficam ainda mais interessantes quando tomam formas de letras.
Que descoberta maravilhosa é saber que tudo pode ser escrito.
Ou não?
Meus alunos certamente acham que sim. Afinal de contas, foi eu mesma, a professora, quem lhes disse que podemos escrever tudo.
Hoje, depois de tanto tempo sem "rabiscar" por aqui, penso que infelizmente, não.
A dor que sinto agora, não pode ser representada por palavras. É preciso viver essa dor para então chegar a alguma palavra, frase, sentença...
Por enquanto é somente silêncio. Não há registro.
Há uma frase, colada num móvel de casa, escrita por sabe-se lá quem que diz o seguinte:

"O próprio silêncio pode em determinado momento ultrapassar o som e tornar-se mais importante que a palavra."

Silêncio.

Minha contradição com essa frase é que também não há registro para o grito. O grito também é em "determinado momento", mais importante que a palavra.

Grito.

...